Cel/Whats: 54-98100-9801

ISABELLE FAUST: FÁUSTICA, ÓRFICA… E DE OUTRO MUNDO

HomeJornalismoISABELLE FAUST: FÁUSTICA, ÓRFICA… E DE OUTRO MUNDO

Texto de Regina Porto, de longe a melhor jornalista especializada em Música no Brasil.

Conversa imaginária com a violinista alemã Isabelle Faust. E alguns rabiscos…

Sim, eu talvez tivesse algumas perguntas para Isabelle Faust, embora já soubesse as respostas. Você dirá: não é assim que se faz uma entrevista. Eu sei. Mas é que quem responde sempre responde num campo contextual só seu – o da sua vida, do seu ser, repositório único de tudo o que antecedeu aquele exato instante de uma interrogação. E para quem pergunta essa é uma caixa de ressonância sensível, senão magnética, que amplifica as ponderações seguintes. É um jogo, e aqui o dito e o não-dito têm peso equivalente. Assim que essa entrevista imaginária se bastaria em três questões, as três só possíveis a poetas, espíritos plenos e gente imaginativa. Eis: (1) se a nota ou o som; (2) se a música ou o amor; (3) se seu planeta de origem ou o planeta Terra.

As respostas viriam francas, vivas, mas lacônicas, quase monossilábicas. A entrevista, seguramente uma das melhores da minha vida, não chegaria a quinze segundos.

À primeira pergunta, se nota ou som, tenho quase certeza, ela responderia: o som. E que a nota é só um meio de se chegar ao som. Ponto. E nada aventaria (desnecessário) quanto a esse luxo a que só os mais altos músicos podem se dar, vencido todo resquício de materialidade técnica e de prescrição interpretativa: o de abstrair a música ao ponto do mais puro som, sem qualquer vício de linguagem, quando música menos música é igual a pura música. Que salto!

À segunda, se música ou amor, ela pensaria por cinco milissegundos antes de admitir, com ar estupefato, que a matéria humana última de sua arte, sim, não é que é o afeto? E veria graça nisso que foi para nós, público, quase uma epifania: uma explosão de fúria amorosa manifesta não mais como um ideal microcósmico e particular do mundo plano, mas como essa grande batalha cósmica que funda e rege o universo inteiro com empuxos galácticos e descomunal força dialética – um choque sem fim do qual sua música nada mais é do que límpido reflexo.

Finalmente, à terceira e última pergunta, a mais pessoal, quanto a seu lar de origem, posso antecipar, com enorme frustração, que ela nada responderia, reservando-se um silêncio manso e irredutível que só aumentaria minha desconfiança. Sei que ela é de outro planeta.

O BELO VIOLINO

Quando Isabelle Faust surgiu no palco da SSP – saia azul godê de pontas, sapatilhas inspiradas no campo, cores primaveris, rosto limpo – a primeira imagem era a de uma Alice, a de Lewis Carroll, transparente e feérica, pronta para atravessar túneis e espelhos e nos conduzir a um reino fantástico de maravilhas e realidades inauditas. Foi exato isso, mas foi além. Porque nela habita também uma Gretchen, uma Gretchen já fáustica, muito adiante da acepção do eterno feminino germânico no Fausto de Goethe, porque tomada ela mesma pelo fogo existencial.

Outros arquétipos confluem. Começa [parêntese] que a própria história de seu instrumento é um misto de conto de fadas, mito de herói e romance de formação. Trata-se de um Stradivarius, não ‘qualquer’ Stradivarius, mas um Stradivarius de 1704 e um Stradivarius cercado em lenda: um espécime único abandonado em um castelo e condenado literalmente a sofrer em silêncio por 150 anos, até ser finalmente salvo lá pelos meados do século 19 por algum nobre e gentil caráter que despertaria cada uma de suas cordas com um toque apaixonado. Ao todo, foram três séculos de provas e jornada até que nosso heroico violino estivesse pronto para alcançar seu merecido destino: as mãos prometidas de Isabelle Faust. E o amor dela pelo instrumento foi tão forte, recíproco e à primeira vista que ela de pronto deu nome à sua alma (sim, violinos têm alma, física e metafísica): Bela Adormecida.

SOM DE VIOLINO

Uma vez felizes para sempre, certo é que o instrumento expandiu mais do que a habilidade técnica e expressiva de sua instrumentista. Penso que talvez poucos violinistas no mundo hoje tenham alcançado tamanho repertório de sonoridades. Nesse programa de coragem, hercúleo como uma ‘pièce de résistance’ (quase três horas!), que ela dedica à música abstrata de J.S. Bach (Sonatas e Partitas para violino solo, BWV 1001-1006), seus dedos tocaram milhares de notas. Literalmente. Asseguro: não errou uma sequer, nenhum esbarro. Imprimiu precisão até aos micro intervalos de coma entre enarmônicos. Mais: de cada nota extraiu um som diferente.

Som – esse composto de timbre, altura, cor, a que se imprime forma, duração, dinâmica, vida! – é um conceito complexo, no fundo muito contemporâneo, que se modela e concretiza na mente do artista. Fato é que Isabelle Faust adquiriu esse dom estranho, órfico, quase sobrenatural de encantar os sons. Não só ela enfeitiça os seres viventes com sua música: ela enfeitiça a própria matéria de que é feita a música! E sons os mais difíceis, que soem os mais vulneráveis ou mais ríspidos, os supostamente mais belos ou mais feios, a todos ela quer igual e tem sob domínio. Não para impor-lhes padrões prévios ou adequá-los a gostos preconcebidos. Mas para maximizar sua potência, liberar sua individualidade e projetá-los na plenitude de seus traços, caráter e forma particular de beleza. E é no convívio dessa tipologia diversificada – sons que vão e vêm, se cruzam e se batem, se repelem, se enlaçam – que ela nos abre, a partir do entrelaçado de linhas de Bach, um magno discurso sobre a exuberância das formas, todas elas.

É muito filosófico, e quase político. Espiritual, laico, arcaico, atual. Parafraseando o Gênesis – E o universo soou. E o universo era perfeito. Não porque tudo era consonância e paz. Mas porque havia contraste e conflito entre as forças. E era perfeito não pela uniformidade das coisas iguais ou da multidão indistinta de seres. Mas pela harmonia de suas contrariedades internas e seus árduos esforços de equilíbrio. Todo um painel de sons que se desvela em Bach só equivalente à vasta taxonomia universal de que é composta a existência: a nossa. Que fagulha, que iluminação. Pura centelha.

TEMPO SOLO

O violino de Isabelle Faust fala, mas pouco em causa própria. Já sabia isso desde o concerto de Szimanowski. (Ainda quero voltar sobre seu concerto com Penderecki, magnífico). E por isso mesmo, por ser impermeável ao exibicionismo, atributo tão raro, seu solo jamais é ou está só. Quando toca, Faust conversa com a música, com o violino, com seu próprio silêncio, com o Outro e com cada um de nós. E com Bach, nesse ciclo que Bach mesmo dubiamente apontou como ‘Sei Solo’ [sic], conversam ambos a várias vozes, a duas, às vezes três vozes simultâneas, e se somadas as ressonâncias espectrais, tão estranhas a este mundo, a quatro ou mais. Foi como se Bach em pessoa nos tivesse visitado por três horas. Como se estivéssemos, nós, plateia, assim a um nadinha de distância no tempo e no espaço do grande mestre. Quase podíamos senti-lo respirar, seu ar gordo e generoso, seu apetite voraz, sua imensa satisfação póstuma.

Desnecessário me deter sobre a complexidade e o gênio da escrita de Bach e seu poder de ultrapassar as barreiras da temporalidade e abraçar o longo arco da música do Ocidente, desde a mais primeva monodia e a emissão da nota única em finais de solitaríssima comunhão (só um oximoro para dar conta), até a grande beleza dos conglomerados mais dissonantes e assimétricos em fenômenos acústicos, coisa hoje sabidamente moderna. Faust compreende tudo tão bem, que chega a dar raiva – raiva do bem, raiva de admiração. Como pode tão longe? Vale lembrar que a escrita musical de Bach é despida de indicativos de execução e expressão. Pois mesmo que ela admita uma preocupação legítima quase apavorada com a leitura historicamente informada, sua inteligência intuitiva a conduz além. A uma leitura atemporalmente informada. Cosmicamente informada. Informada em outras estrelas. A uma dimensão absoluta,

O fato: nas mãos de Faust, Bach falou. Prolixo, persuasivo e como grande senhor da retórica seis-setecentista que foi. Empregando todos os recursos da linguagem escrita e falada para dar voz aos indizíveis ‘affeti’ de que a humanidade é capaz com sua infinita gradação de paixões, ânimos, gestos e humores. Sim, a integral solo faz um percurso completo pela alma humana, nossos vícios e virtudes, dores e gozos. Nada escapa, nenhum recanto. Por isso saímos todos desse recital, cada um a seu modo íntimo e particular, tão perceptivelmente ‘afetados’ – para usarmos aqui um conceito de Spinoza. ‘Sem palavras’, foi o bordão único que nos dizíamos todos à saída, com despojada franqueza, quase que como confissão e sob evidente estado alterado de consciência. Porque naquele domingo, durante três horas, nós ouvimos o som do tempo.

________________________________

Domingo, 17/set, 16h. Sala São Paulo.
Temporada 2017 da OSESP.
Recital da violinista alemã Isabelle Faust, artista em residência.
Programa: Partitas e Sonatas para violino solo, BWV 1001-1006, de J.S. Bach.
Curadoria: Arthur Nestrovski , diretor artístico da OSESP, com um Bravo meu.

Por:

O autor ainda não preencheu seu perfil