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ENTREVISTA COM JIMMY PAGE

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Há um ano foi lançada uma versão remasterizada das famosas BBC Sessions, gravações do Led Zeppelin na rádio BBC. Quem remasterizou foi o próprio Jimmy Page, ajudado por John Davis. O pacote inclui versões em CD, vinil e MP3, além de 48 páginas com fotos no livrinho do box-set. Há inclusive uma gravação inédita: Sunshine Woman.

Mesmo lançando seus trabalhos “unledded” e fazendo shows junto com Robert Plant depois do fim do Led, Page reconhece nos anos 70 o apogeu do Led Zeppelin e do hard rock. Sempre aberto às novidades, viu na tecnologia possibilidades de reeditar os bons tempos, mas reconhece as diferenças – nem sempre para melhor – do analógico para o digital.

Além dessa recente remaster, Page nos conta aqui como resolveu “re-piratear oficialmente” as famosas sessões da BBC de Londres na forma de CD duplo: gravações da rádio inglesa de 1969 a 1971 tiradas de velhas fitas de gravador de rolo. Em um momento em que todo mundo discutia novos formatos de gravação e distribuição de música pela rede ele divide sua presença na Internet com a pacata vida de fazendeiro… em algum lugar do interior do… nordeste do Brasil…

O primeiro disco tem 12 faixas gravadas em mono datadas de 1969, como versões de You Shook Me e Whole Lotta Love. Rolam também duas músicas inéditas: The Girl I Love, do bluesman Sleepy John Estes e Something Else, um rockabilly do grande Eddie Cochran’s. O segundo tem 10 faixas estéreo gravadas do concerto da BBC no London’s Paris Cinema em 1 de abril de 1971, com versões acústicas de Going To California e That’s The Way.

“Historicamente as gravações são boas, porque mostram exatamente o rolava: uma fotografia do momento da banda buscando seu caminho” diz Page. “Não é o melhor do Led Zeppelin, nem o pior”, conclui. É o que rolou naquelas noites, e que, na maioria das faixas, é muito bom.”

Quando você tirou a poeira das fitas, o que achou de mais interessante?

Page – “Eu ouvi as sessões algumas vezes nestes anos, e elas soaram completamente atuais. Mas o mais excitante é comparar diferentes versões das mesmas canções. É interessante ouvir músicas como Communication Breakdown – que rola três vezes – evoluir de uma para outra. É como reler um diário.”

Os CDs mostram como o grupo era vivo. O Led mudava as coisas substancialmente a cada vez que as tocava. As duas versões de You Shook Me são um bom exemplo disso. A versão que abre o álbum não está livre dos padrões, mas não se compara com a segunda versão gravada apenas uns meses depois. A minha interação com Plant cresceu e aparece nos “duelos” de voz e guitarra. Esse tipo de coisa é um indicador de como a banda estava realmente começando a se entrosar. Fomos nos aproximando do ponto da telepatia.

Quero dizer, se você comparar nossas sessões com, por exemplo, as dos Beatles. Eu aposto que se eles têm duas ou três versões de Love Me Do ou outra música, elas são idênticas. Essa era a diferença entre nós e nossos contemporâneos: O Led Zeppelin estava realmente mudando a música o tempo todo.” (O segundo disco do Led foi o primeiro a suplantar os Beatles em vendas nos EUA).

Você disse que teve que editar algumas coisas. Dê um exemplo desse tipo de trabalho que você teve..

Page – “Não foi lá essas coisas… O maior problema que eu tive foi reduzir os 96 minutos do show no Paris Theater para os 80 que cabiam no CD. A maior parte que tive que mexer foi o medley de Whole Lotta Love que tinha 20 minutos, incluindo pedaços de Let That Boy Boogie Woogie, Fixin’ To Die, That’s Alright Mama e Mess O’Blues, que ficaram, e Honey Bee, Lemon Song e For What It’s Worth que caíram fora.

Fiquei surpreso com o que o programa de edição Pro Tools é capaz de fazer. Dá pra mover trechos sem afetar o groove. Por exemplo, metade de um dos meus solos foi editado na segunda metade de um outro solo e você nunca vai descobrir! É o tipo de coisa que eu adoro fazer. É bom se meter a resolver um problema que você considerava impossível achando uma solução criativa.”

Há algum “furo” que você deixou de propósito?

Page – “Há um momento engraçado na segunda versão de You Shook Me. A guitarra entra muito alta e você poderia dizer que o engenheiro foi pego de surpresa e desceu de repente o fader. Nós deixamos isso porque foi um momento real. Então, no caso de alguém pensar que a culpa foi minha, não foi… eu não era o engenheiro!

Mas seria bom que todos entendessem que naquela época esse tipo de erro não era importante. Nós nunca sonhamos que aquilo iria ser gravado numa coisa chamada CD, nem que as pessoas estariam interessadas nisso 25 anos depois. Foi só para o rádio divulgar e talvez repetir.”
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Eu ouvi em algumas faixas uma dobra, às vezes uma guitarra base atrás dos solos, ou uma harmonia a mais. São coisas que você fez na edição, ou era uma prática comum?

Page – “A BBC só queria o melhor show possível. Eles sabiam que as bandas estão sempre tentando recriar alguma coisa que nasceu num gravador de 8 canais, daí dobrar detalhes aqui ou ali era normal. Pelo menos uma dobra a gente colocou.”

Que tipo de fitas foram usadas?

Page – “Essa é uma história à parte. Quando começamos a pensar em lançar as sessões, pedimos à BBC para mandar cópias do que tinham. Eles mandaram pelo Jon Astley – que me ajudou no processo de remasterização – uma cópia DAT da gravação. Por eles não terem mandado as fitas de quarto de polegada originais, nós presumimos que tivessem perdido tudo e sobrado só o digital. O plano era remasterizar e editar a partir da fita DAT.

A coisa interessante é que quando eu pedi à BBC para enviar cópias, pedi especificamente uma fita cassete, que pensei ter sido copiada do DAT. Mas quando sentamos para começar a remasterizar e Jon tocou a fita digital eu pensei: “Meu Deus, que som terrível…” Meus ouvidos podiam estar me enganando, mas minha fita cassete parecia soar bem melhor do que a cópia DAT.

Aí peguei a fita cassete e realmente ela soava muito melhor, o que me levou a concluir que ela tivesse sido copiada de uma fonte diferente, talvez as velhas fitas de rolo. Seguindo minha intuição conseguimos encontrar as masters. Demorou um pouco procurando, mas valeu.”

Não é novidade que as sessões da BBC do Zeppelin são as mais pirateadas da história. Se você for um fã sério do Led já as ouviu ou tem uma versão. Qual a sua opinião sobre pirataria?

Page – “Depende. Se é alguém com um microfone num show é uma coisa. A pessoa pagou ingresso e aí é uma brincadeira. Mas coisas roubadas de estúdio onde estavam sendo trabalhadas, fitas de ensaio etc. são outra coisa. Aí sou totalmente contra. É roubo. É como alguém pegando o seu texto e publicando

Em relação às sessões da BBC, nunca me importou se foram muito pirateadas porque qualquer que seja a versão que as pessoas tenham não podem ser da fonte original da qual extraímos a nossa. Depois, nem todos compram pirataria, e os fãs que compram vão querer essa versão para ver como a editamos.”

Uma das principais diferenças entre os dois CDs da BBC é que no de 1971 vocês pararam de tocar covers de blues…

Page – “Olha, nós começamos a compor nossos próprios blues, não é? Depois do primeiro álbum eu estava consciente da necessidade de começar a assumir nossa própria identidade. Eu sentia uma pressão para dar minha contribuição pessoal. No começo eu era bem feliz de tomar emprestado do Otis Rush coisas como I Can’t Quit You. Era um prazer. Mas depois de um tempo começei a pensar que não era o que deveria fazer. Senti que tinha que começar a desenvolver minhas coisas e parar de ouvir as coisas dos outros. E foi o que rolou.

Whole Lotta Love é bom exemplo. Tivemos problemas porque as pessoas sentiam que pegamos a canção do Willie Dixon, mas se você tirar a letra fora e ouvir só o instrumental é claro que soa completamente diferente do original. Outro exemplo é Nobody’s Fault But Mine do Presence. Plant chegou um dia e sugeriu um cover, mas o arranjo que fiz não tinha nada a ver com o original do Blind Willie Johnson. Robert pode ter tido vontade de ir pelo bluesy da letra, mas o resto era outro tipo de coisa. Eu por exemplo só recentemente descobri que The Girl I Love tem alguma a ver com Sleepy John Estes!”

Qual era a sua definição do Led Zeppelin?

Page – “Nos últimos tempos eu achava que era um casamento do blues, hard rock e acústico, puxados por chorus pesados. Uma combinação nunca feita antes.”

Eu estava olhando uma velhas fotos da banda e percebi que você tinha um estranho acervo de guitarras e amplificadores em 1969. O que andava usando antes de optar pela dupla Les Paul e Marshall Super Lead que as pessoas acostumaram a ver e ouvir nas suas mãos?

Page – “Era o que eu podia comprar naquela época. Nunca ganhei dinheiro com os Yardbirds, eu era completamente duro no começo. Tive que financiar o primeiro disco do Led com algum que eu tinha guardado como músico de bar. Eu tinha um equipamento mínimo: uma Telecaster que o Jeff Beck me deu, um Harmony acústico, umas caixas Rickenbacker TransSonic que também vieram dos Yardbirds, e amplificadores Vox e Hiwatt.

Eu tinha também uma Les Paul Custom preta com uma enorme alavanca que foi roubada no aeroporto. Estávamos indo tocar no Canadá e em algum lugar trocamos de vôo e ela desapareceu, nunca chegou no destino. De pedais, eu só usava um Echoplex, uma distorção Tonebender e um wah-wah.”

O que você estava tocando no CD de 1969?

Page – “A Telecaster. Não me lembro com que amp…”

Você mudou para uma Les Paul porque sentiu que em certo volume a Tele não dava conta?

Page – “Não. Se você ouvir o primeiro álbum a Tele estava fazendo tudo, com os pedais que acabei de falar. Ela estava dando conta sim.”

Então por que você a abandonou?

Page – “Quando o Joe Walsh estava me tentando vender a sua Les Paul, eu disse: “Estou bem contente com a minha Telecaster.” Mas assim que toquei com a Les Paul me apaixonei. Não por algo que a Tele não pudesse fazer, mas a Les Paul era muito falante e fácil de tocar. Ela me pareceu de cara uma boa guitarra para turnês.”

Como os quatro membros do Zeppelin se davam pessoalmente? Tudo era bem resolvido internamente como parecia?

Page – “A atmosfera no Led sempre foi encorajadora. Nós todos queríamos a música rolando cada vez melhor. E parte dos motivos para as coisas serem sempre bem resolvidas é que eu dava a última palavra em tudo. Eu era o produtor, e aí não rolavam brigas. O clima era sempre muito profissional, eu era meticuloso com minhas anotações de estúdio e todo mundo sabia que teriam seus próprios créditos, e tudo corria bem.

Outra coisa importante: Nós todos morávamos em diferentes estados, e quando acabavam as excursões nem víamos mais uns aos outros. Acho que isso ajudou. Só nos socializávamos na estrada. Todos valorizávamos nossa vida familiar, especialmente depois das longas viagens, como deveria ser. Isso ajudou a criar uma estabilidade. Nossas famílias nos deixavam legais.”

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