
a exigência do diploma de “jornalismo” para que os elementos escrevedores e faladores possam ocupar mesas, lugares ou holofotes no mercado de informação que é a imprensa tupiniquim. No caso do jornalismo dito “especializado” em música – poderia ser qualquer outra área – formaram-se elementos que mal sabem escrever ou falar, escrevendo e falando sobre o que não sabem sequer ouvir, no caso a música.
A imprensa tradicional agoniza em todo o planeta. Formatos de entrevistas, artigos e reportagens são adaptados, cozinhados e transcritos para blogs, sites “de relacionamento” e outras maneiras de se manter informado, que não seja financiando os barões da mÃdia, que por sua vez são comprados pelos grupos de poder, econômico, “religioso” e polÃtico, que mantêm as coisas como deus quis, para ver como é que ficam quando deus quiser.
O resultado é que a informação ficou com o seu público-alvo, da mesma forma que a distribuição de música, deixando os atravessadores de humor atravessado. Uma mente sã comparou, quando a indústria fonográfica começou a perseguir o Napster, a distribuição de música pela internet à s prateleiras de supermercado, onde só faltava alguém instalar o caixa para cobrar na saÃda. A indústria fonográfica preferiu dinamitar as prateleiras.
Desde mil novecentos e outubro o jornalismo vem se comportando de maneira análoga a indústria fonográfica. Agora que começa a se tornar mais rápida, barata e eficiente a obtenção de informação de forma alternativa – leia-se internet, celulares e toda a telemática – a indústria da informação começa a procurar uma maneira de dinamitar a informação, transformando-a num ciclone de previsões do tempo e tragédias apelativas.
A sabedoria milenar do Oriente nos conta que Shiva é o deus que simboliza a dinâmica da desconstrução no universo, Vishnu simboliza o princÃpio de manutenção da construção e Brahma o princÃpio criador. Nada mais atual. Shiva é a telemática transportando as obras pelo ar e pelo éter, Brahma são os novos parâmetros da evolução humana e Vishnu são os poderes moribundos a encher o saco dos 1% de desanestesiados.
Mas os “jornalistas” portadores de diplomas que infestam as redações no Brasil – e em boa parte do planeta azul – acham que Vishnu e Shiva são personagens de novela e Brahma é pra beber na hora em que “largam” o seu expediente, felizes por se livrarem do trabalho, porque consideram trabalho uma coisa ruim, “fizeram” faculdade pensando em cabide de emprego ou vil metal conquistado a qualquer custo, mais exatamente o de informar errado.
Não adianta tentar dissertar, escrever ou imaginar – e a imaginação jornalÃstica é um mal crescente – sobre o que se conhece pouco, mais ou menos ou nada. Mais valeria uma pós graduação em jornalismo para médicos, engenheiros, advogados e músicos. Mas o ensino, seja ele de qualquer grau, parece não passar do degrau estreito da manutenção do status quo, e não almeja evolução de qualquer espécie que seja.
Como nas rádios do século passado, uma estarrecedora quantidade de “âncoras” – sugestivo nome para quem já afundou e se acostumou ao fundo – abrem ultrapassados jornais diários na frente de microfones e cozinham, em tempo real, uma comida informativa azedada com tempero vencido. Não demorou para que nos estúdios de televisão os prompters tivessem o mesmo papel. Sem papel.
Determinado programa de um desses canais de “notÃcias” foi bastante criativo: uma animação em que os jornais estrangeiros ficam enfileirados num canto da tela, e de lá saltam aos olhos dos telespectadores com suas manchetes, enquanto uma “jornalista”, atenta, lê para os ouvintes, supostamente cegos, seu conteúdo. Uma coadjuvante pergunta, entremeando aos fatos, se há mais alguma coisa a saber.
Há sim, o que eu chamaria de “jornalismo de elevador”, cujo assunto é sempre aquele dos vizinhos entediados e obrigados a alguns segundos de convÃvio verbal e auditivo com o próximo do andar próximo, ou seja, o tempo. Não o do relógio, mas aquele que nunca deve ser o quer que seja que não mude nunca, o tempo meteorológico das musas aspirantes a modelo ou atriz, com suas mãozinhas a apontar mapas imaginários por um triz.
Mas vamos supor que você é um “jornalista formado” que não obteve sucesso na “imprensa especializada”, pelos seus nulos conhecimentos de medicina de almanaque, direito de porta de cadeia ou engenharia de sanduÃches. O que fazer? Fácil. Procurar escrever ou falar de alguma coisa supérflua, como dança, literatura, música ou teatro, oras, que não servem pra nada, logo, seu Ãndice de erros de informação terão baixo nÃvel de consequências.
Como não existe nada ruim que não possa piorar um pouco – ou muito – se também não conseguir uma boquinha nas “artes”, com certeza vai engrossar o caldo de cultura dos comentaristas, locutores e especialistas nos esportes de massas. Algo como o sucessor do Galvão Bueno com um blog interativo ao vivo do Senado, afinal eu disse que não existe nada ruim que não possa piorar um pouco, ou muito…
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